Um dia de junho de 1923: Mrs Dalloway e Cia. caminham por Londres [5]

Ilustração de Mayra Martins Redin para o Estojo Mrs Dalloway, Ed. Autêntica, 2012.

5. Elizabeth Dalloway

Resta-nos acompanhar o último passeio notável do romance, o de Elizabeth Dalloway, primeiro na companhia da Srta. Kilman e, depois, sozinha. O Big Ben (sempre ele) batia as três e meia quando as duas saíram em direção às Lojas do Exército e da Marinha, na Victoria Street (no nº 125, nos informa o Guia Baedeker’s de Londres, edição de 1923, p. 43). Percorrem algumas seções da loja, antes de se sentarem para tomar chá, depois do qual, na sequência de uma calorosa discussão, Elizabeth deixa a loja sozinha. A Srta. Kilman permanece por um momento sentada à mesa, sozinha, antes de resolver também ir-se embora. Ela sai da loja, entrando, depois, na Abadia de Westminster. Enquanto isso, Elizabeth estava à espera de um ônibus na Victoria Street. Mas não ia voltar imediatamente para casa, ia tomar um ônibus, qualquer, para qualquer lugar. Finalmente, embarca num que se dirigia para a Whitehall, mas ao preço de mais uma moeda, decide seguir para a Strand, a leste, na rota do comércio e das finanças, na City, já bem distante de sua familiar Westminster. Após ver passar a Somerset House, majestoso edifício localizado no lado sul da Strand, que, em 1923, abrigava repartições governamentais, ela desce do ônibus na Chancery Lane, rua estreita, que inicia na Strand e se estende para o norte, no limite entre  a City of Westminster e a City of London, continuando a pé sua aventurosa incursão no mundo dos negócios, da lei, da administração. Vê estender-se à sua frente a Fleet Street (continuação, a leste, da Strand). Passa em seguida pelo Temple (o conjunto de edifícios onde estão sediadas as associações e instituições jurídicas), também no lado sul da Fleet Street e caminha pela Fleet Street, em direção à Catedral de St Paul, situada um pouco adiante, no topo da colina chamada Ludgate Hill. Tendo decidido dar um fim à sua extemporânea excursão, volta para a Strand e toma o ônibus de Westminster, voltando para casa.

Tomaz Tadeu

Um dia de junho de 1923: Mrs Dalloway e Cia. caminham por Londres [4]

Ilustração de Mayra Martins Redin para o Estojo Mrs Dalloway, Ed. Autêntica, 2012.

4. Richard Dalloway & Hugh Whitbread

Movemo-nos agora para outros dois personagens, Richard Dalloway e Hugh Whitbread, que também fazem sua pequena perambulação por Londres, para almoçar com Lady Bruton, em sua casa na Brook Street, em Mayfair, onde irão ajudá-la a redigir uma carta para o Times. Não sabemos como Richard chega lá, mas vemos Hugh a caminho, detendo-se diante da vitrine de uma loja na Oxford Street (Rigby & Lowndes). Depois, eles se encontram à entrada da casa de Lady Bruton. Após o almoço e a redação da carta, saem juntos. Vemo-los, em seguida, “na esquina da Conduit Street” (p. 114) (uma continuação, a noroeste, da Bruton Street – seria mera coincidência que a senhora que acabaram de visitar tenha o mesmo nome dessa rua?), algumas quadras a sudeste da rua onde mora Lady Bruton, contemplando a vitrine de uma loja, na qual entram, após certa hesitação. Richard Dalloway deixa Hugh na loja e se dirige para casa, buscando antes comprar flores para levar para Clarissa. Atravessa o Green Park (na rota do passeio matutino de Clarissa), passa pelo Buckingham Palace, entrando finalmente no Dean’s Yard, já praticamente em casa, enquanto o Big Ben batia as três horas.

Tomaz Tadeu

Um dia de junho de 1923: Mrs Dalloway e Cia. caminham por Londres [3]

Ilustração de Mayra Martins Redin para o Estojo Mrs Dalloway, Ed. Autêntica, 2012

3. Rezia e Septimus

Podemos, agora, voltar ao casal Warren Smith, do qual já tivemos um vislumbre quando tentavam atravessar a Bond Street, enquanto Clarissa estava no interior da floricultura (“Septimus Warren Smith, que não conseguia passar, ouviu o que ele[Edgar J. Watkiss] disse” (p. 16)). Rezia intimava o marido, em quem a explosão do carro a motor tocara um nervo sensível, a continuarem o seu caminho. Quando os vemos novamente, já estão bem longe, na Broad Walk ( a longa e larga alameda que, no lado leste, atravessa o Regent’s Park no sentido norte-sul), sentados num banco, contemplando o aeroplano escrevente. Enquanto permanecem no parque, há uma sucessão de acontecimentos, quase todos relacionados às alucinações de Septimus. Estimulado pela aparição do avião escrevente, ele entra num transe do qual sai apenas quando Rezia lhe diz que vai até o chafariz e já volta (trata-se, obviamente, da fonte conhecida como Readymoney, situada justamente na Broad Walk; ver, em Notas, p. 249, observação sobre o “indiano e sua capelinha”). Quando volta, percebe que ele continua com suas visões. Nesse ponto, após Maisie Johnson ter perguntado ao casal onde ficava a estação do metrô, deixamos os dois no parque para acompanhar a volta de Clarissa à sua casa, após a sua pequena excursão matinal. Voltamos a encontrá-los, mais adiante, quando Peter Walsh vê a “pequena Elise Mitchell” (p. 66) chocar-se contra as pernas de Rezia. Septimus estava no meio de mais uma de suas visões, quando Rezia lhe diz que está na hora da consulta com o Dr. Bradshaw. Tinha perguntado as horas a Septimus, quando algum sino (o Big Ben?) bateu assinalando que faltavam quinze minutos para o meio dia. Vamos encontrá-los, depois, já fora do parque, perto da estação do metrô, passando pela velha mendiga e sua antiga canção também encontrada por Peter Walsh, esperando para atravessar a rua (supostamente a Marylebone Road, onde se situa a estação do metrô do Regent’s Park). O Big Ben batia as doze horas quando chegam à Harley Street, rua londrina onde se concentram instituições médicas e onde se situa, naturalmente, o consultório do Dr. Bradshaw. Vemo-los, depois, já fora do consultório, descendo a Harley Street. Só os veremos novamente já em sua casa, nas proximidades da Euston Road, em Bloomsbury, de onde Septimus só sairá, já morto, numa ambulância.

Tomaz Tadeu

Um dia de junho de 1923: Mrs Dalloway e Cia. caminham por Londres [2]

Ilustração de Mayra Martins Redin para o Estojo Mrs Dalloway, Ed. Autêntica, 2012

2. Peter Walsh

Em casa, Clarissa recebe a inesperada visita de Peter Walsh, o namorado de trinta anos atrás, que fora para a Índia e estava de regresso a Londres. Após visitá-la, ele empreende a sua própria peregrinação por Londres. Após ser apresentado à filha de Clarissa, Elizabeth, e enquanto o Big Ben bate as onze e meia, Peter deixa apressadamente a casa de Mrs. Dalloway. Sua caminhada será pontuada, em parte, pelo encontro de importantes símbolos do (declinante) império britânico: estátuas, monumentos, edifícios governamentais. Encontramo-lo, inicialmente, na mesma rua atravessada mais cedo por Clarissa, a Victoria Street, contemplando a vitrine de um fabricante de automóveis (sim, apesar de relativamente novos, tão novos que no romance são chamados de “motor cars” [“carros a motor”] para distingui-los dos carros a tração animal com os quais conviviam numa grande confusão nas ruas de Londres, já mereciam, em 1923, na realidade, duas lojas de automóveis, e não apenas uma como no romance, na Victoria Street da época). Enquanto o som da St. Margaret se apagava, Peter toma, no sentido sul-norte, a Whitehall, rua encostada à residência dos Dalloway, em Westminster, e que se estende desde as Casas do Parlamento, ao sul, até a Trafalgar Square, ao norte. Caminhando a “passos largos, olhar fixo à frente” (p. 52), encara a estátua equestre do Duque de Cambridge, localizada em frente ao edifício do antigo Ministério da Guerra, ainda na Whitehall. Ainda na Whitehall, vê passar, marchando, um grupo de garotos em uniforme, que tinham vindo depositar uma coroa no Cenotáfio (a “tumba vazia”), monumento funerário erigido, em 1919, no centro dessa rua, em memória dos soldados ingleses mortos durante a Primeira Guerra Mundial (quando os garotos passam por ele, já haviam deixado o Cenotáfio, que ele também havia deixado para trás, pois a estátua do Duque de Cambridge encontra-se um pouco ao norte do Cenotáfio, na Whitehall). Vemo-lo, em seguida, já na Trafalgar Square, passando pelos monumentos de Nelson, Gordon, Havelock (ver Índice onomástico, p. 227). Enquanto os garotos em uniforme desaparecem “na direção da Strand”, rua que, começando na Trafalgar Square, corre, para leste, em direção à City, o centro financeiro da cidade, Peter Walsh fica parado “junto à estátua de Gordon, do Gordon que, quando garoto, ele tinha idolatrado” (p. 53). Ainda absorto em seus pensamentos, Peter Walsh atravessa a Trafalgar Square, tomando a direção da rua Haymarket, a noroeste, iniciando sua pequena aventura de perseguição que parecia “se transformar na mulher que sempre tivera em mente; jovem, mas imponente; alegre, mas discreta; morena, mas encantadora” (p. 54). Saindo da Trafalgar Square, ele a segue pela Cockspur Street, na direção oeste, enquanto ela passa pela frente da Dent’s, relojoaria localizada no nº 28. Quando os vemos novamente, já estão bastante longe, a noroeste, “atravessando a Piccadilly, e seguindo para a Regent Street” (p. 55). Ela caminha depressa (e Peter atrás): seguindo ao longo da Regent Street, atravessa, bem mais ao norte, a Oxford Street e, dobrando à direita nessa mesma rua ou nalguma rua paralela,  chega a uma rua paralela à Regent Street, a Great Portland Street, atravessando-a e dobrando numa ruela transversal, chega à sua casa, pondo fim à aventura vespertina de Peter Walsh. Peter segue, agora só, o seu caminho. Deu meia-volta e subiu a rua (supostamente, a Great Portland Street), em direção ao Regent’s Park, onde decide descansar enquanto espera chegar a hora da reunião com seus advogados, em Lincoln’s Inn. Já no parque, escolheu, para descansar, um banco em que se sentava uma babá cuidando de um bebê num carrinho. Fumando o seu charuto e pensando em Elizabeth, a filha de Clarissa, acabou adormecendo profundamente. Há, aqui, uma indicação de hora, quando o casal o vê no banco: “Enquanto ele [Septimus] se sentava, sorrindo para o homem morto, de terno cinza, soaram as horas – quinze para as doze” (p. 72) (Entre a hora em que Peter saiu da casa de Clarissa até a hora em que se acordou, decorreram apenas quinze minutos! Uma verdadeira proeza atlética, considerando-se que a distância percorrida é de aproximadamente 3,5 km e que, durante esse tempo, ele perseguiu uma moça e ainda cochilou no banco do parque.)   Ao acordar vê uma criança chocar-se contra as pernas de uma senhora que (ele não sabia, claro) não era outra senão Rezia Smith, a esposa de Septimus. Ao se levantar, para retomar o seu caminho, Peter passa pelo casal (Septimus estava tendo um de seus acessos e Rezia tentava acalmá-lo.) Pensando nas mudanças pelas quais passa a Inglaterra enquanto estivera na Índia, ele dobra na Broad Walk (longa e larga alameda no interior do parque, na direção norte-sul). Após uma longa sequência de pensamentos e recordações, vemo-lo finalmente, saindo do Regent’s Park. Seus pensamentos, já fora do parque, são interrompidos, junto à estação de metrô próxima ao parque, pela canção “sem sentido” de uma velha mendiga, a quem dá uma moeda enquanto pega um táxi, supostamente para ir até o escritório do seu advogado. Só teremos notícias dele novamente quando ouve o sino (sim, as ambulâncias, pelo menos as de Londres dessa época, tinham um ou mais sinos, em geral sobre o para-choque frontal) da ambulância que conduz o cadáver de Septimus. Como somos informados de que Peter ainda ouve o som da ambulância quando ela cruza a Tottenham Court Road, que corre transversal à Euston Road, paralela ao lado sul do Regent’s Park, pode-se deduzir que Peter Walsh se encontra nessa última rua (a estação de metrô do Regent’s Park, onde o vimos pela última vez, está situada na Marylebone Road, que está em continuidade, a oeste, com a Euston) quando ouve o sino da ambulância. Depois disso, apenas ficamos sabendo que “tinha chegado ao seu hotel” (p. 154), mas não somos informados precisamente onde ele fica. Após jantar no restaurante do hotel, onde trocou gentilezas com a família Morris, sai à rua brevemente para comprar um jornal e conferir o resultado do jogo do críquete, voltando para o seu quarto no hotel. Quando sai novamente, para ir à festa de Clarissa, não sabemos onde inicia o seu trajeto, mas, por um pensamento seu (“Não era a beleza pura e simples – a Bedford Place desembocando na Russell Square” (p. 164)) intuímos que ao sair do hotel ele estaria nas imediações da Bedford Place (o seu hotel estaria localizado aqui?), praça situada a noroeste do Museu Britânico, no coração de Bloomsbury. E, assim, ele caminhava, “através de Londres, em direção a Westminster”. E o vemos novamente na Whitehall, agora no sentido contrário (sul), para a casa de Clarissa. E, depois, já na “rua dela, a rua de Clarissa” (p. 165), que não sabemos exatamente qual é, apenas que fica próxima do Dean’s Yard, nas imediações da Abadia de Westminster, como já vimos.

Tomaz Tadeu

Um dia de junho de 1923: Mrs Dalloway e Cia. caminham por Londres [1]

1. Mrs Dalloway

A narrativa de Mrs Dalloway tece uma emaranhada teia de caminhos que se cruzam na Londres de um dia de junho de 1923, dos quais o mais importante é o da personagem que dá título ao romance, Clarissa Dalloway. Como sabemos, ela sai de casa no meio da manhã, para comprar flores para a sua festa, no final de um dia de junho de 1923. Não sabemos exatamente a hora. (Também não saberemos onde, exatamente, mora o casal Dalloway. Por uma informação lateral (p. 119), dada quando, mais adiante, Richard Dalloway volta à casa após uma visita a Lady Bruton, apenas ficamos sabendo que residem em alguma rua nas proximidades do Dean’s Yard, um quadrilátero gramado, não residencial, situado nos domínios da Abadia de Westminster, em torno do qual se situam a Westminster School e outros edifícios ligados à Abadia.) O Big Ben bate as horas enquanto ela cruza a Victoria Street, mas não somos informados de que hora se trata. Mas, como mais adiante, na cena do aeroplano, ouve-se novamente o Big Ben (supostamente, pois a narrativa menciona apenas “os sinos”) bater as horas (p. 22) e, dessa vez, nos dizem, são onze horas, pode-se presumir que Clarissa cruza a Victoria Street, a partir do lado sul, às dez horas. Pouco depois, ela entra num parque, o St. James’s Park (http://goo.gl/yAj4P), pode-se supor, acompanhando-se o roteiro num mapa de Londres (e também porque é explicitamente nomeado um pouco mais adiante). Nos mapas que acompanham algumas edições de Mrs Dalloway, costuma-se indicar o percurso exato de sua caminhada, mas trata-se de dedução, pois tudo o que a narrativa nos fornece são alguns dos pontos pelos quais ela passa. Assim, não sabemos exatamente como ela foi da Victoria Street até a entrada do parque (pelo portão chamado Storey’s Gate, adivinha-se, pois é o portão situado no canto  sudoeste do parque, na rota do seu caminho.) Também não se sabe por qual caminho atravessou o parque, mas certamente não foi, como se indica nos mapas que acompanham certas edições do livro, através da ponte (Blue Bridge) sobre o lago, hipótese incompatível com a informação de que ela aí encontrou seu velho amigo Hugh, “de costas para os edifícios do Governo” (p. 7), que ficam a sudeste do parque. Assim, ela só pode ter atravessado o parque pelo caminho que o costeia do lado leste, paralelamente à Horse Guards Road. (Seu amigo Hugh teria feito o mesmo caminho, na direção contrária, e, para ele estar de costas para os edifícios governamentais, teriam se encontrado logo na entrada do parque, como, aliás, sugere o próprio texto). A próxima informação que temos sobre o seu trajeto é que “tinha chegado aos portões do parque. Ficou um instante parada, observando os ônibus na Piccadilly” (p. 10). Mas não se trata mais do St. James’s Park, onde a vimos pela última vez, mas do Green Park (http://goo.gl/Zx448), situado a noroeste do St. James’s. Na verdade, ela passou pelos dois parques, saindo na rua Piccadilly, onde viu os ônibus passarem. Quando a vemos de novo, ela está contemplando a vitrine da livraria Hatchard’s, localizada no nº 187 da Piccadilly, o que sugere que, ao sair do Green Park, ela teria dobrado à direita na Piccadilly, mantendo-se na calçada do lado sul, caminhado ao longo dessa rua, passado a Bond Street, que nela desemboca, partindo do norte, para ir até a Hatchard’s (real), mais adiante, ainda na calçada sul da Piccadilly (cf. SUTHERLAND, 2001, p. 218). É por ter passado a entrada da Bond Street, estando no lado sul da Piccadilly, que mais adiante ela dá meia-volta e começa a “caminhar de volta para a Bond Street” (p. 12). Aí ela passa por uma peixaria, por uma loja de luvas, “em direção a uma loja em que se reservavam flores para ela quando dava uma festa” (p. 13), onde entra pouco depois: “Bobagens, bobagens! exclamou para si mesma, empurrando a porta giratória para entrar na Mulberry [fictícia], a floricultura” (p. 14). É quando está no interior da floricultura que ouve a explosão de um carro a motor. (Enquanto Clarissa ainda está no interior da floricultura, passa pela Bond Street o casal Smith, Septimus e sua esposa, a caminho do Regent’s Park e de sua consulta com o Dr. Bradshaw.) Quanto à Clarissa, após todo o barulho em torno da passagem do carro oficial, sai da “Mulberry com suas flores” (p. 18). Só a veremos novamente já chegando em casa, tendo perdido a cena do avião escrevente, presenciada por outros transeuntes: “‘O que estarão olhando?’, perguntou Clarissa Dalloway à criada que lhe abriu a porta” (p. 30).

Notas

1. Não sei a respeito dos outros tradutores, mas, no decorrer de uma tradução, acumulo uma grande quantidade de material (anotações, informações, esclarecimentos) que não podem ser incluídos no livro, mas que me foram úteis. Em geral, trata-se de informações que poderiam ter se transformado em notas, mas como, em geral, evito notas enciclopédicas ou didáticas, elas acabam ficando de fora da edição final. O texto acima foi escrito, quase ao final da tradução, quando estava às voltas com a melhor maneira de incluir um mapa de Londres na edição (após ter brincado com várias ideias, acabei me decidindo por pedir à artista que estava trabalhando comigo, Mayra Martins Redin, que fizesse um mapa estilizado de Londres, que é o que aparece nas folhas de guarda tanto do romance quanto do Diário de Mrs Dalloway.)

2. Os endereços de sites (URLs) após os nomes de parques são de magníficos mapas tridimensionais dos parques de Londres, do site oficial The Royal Parks.

3. As páginas remetem à edição de Mrs Dalloway publicada pela Autêntica Editora, com tradução de Tomaz Tadeu.

4. O mapa que encabeça este post foi feito por Mayra Martins Redin, que também fez os desenhos do Diário de Mrs Dalloway que faz parte do estojo da edição de Mrs Dalloway, publicada pela Autêntica.

Tomaz Tadeu

Mrs Dalloway por Tomaz Tadeu

A edição de Mrs Dalloway da editora Autêntica foi traduzida por Tomaz Tadeu que, além do romance mais famoso de Virginia Woolf, já traduziu outros livros interessantes. Falo dele porque a partir de sexta-feira irei publicar aqui no blog um texto sobre Mrs Dalloway escrito por ele. E como o texto é longo e o tempo dos leitores curto, o texto será publicado em partes, então, este pequeno post é uma chamado para vocês, woolfianos, não deixarem de vir aqui para ler as partes do artigo intitulado “Um dia de junho de 1923: Mrs Dalloway e Cia. caminham por Londres“. Vocês vão conhecer com mais detalhes a obra Mrs Dalloway pelo olhar detalhado de um tradutor.

Aproveito também para informar que sexta-feira começará mais uma promoção no blog Livro & Café e @woolfv com o sorteio do Estojo Mrs Dalloway. Acompanhem o twitter e o blog para vocês não perderem nada, ok?!

Bem, diverti-me; sempre foi alguma coisa, pensou, olhando para os oscilantes vasos de pálidos gerânios. Um prazer desfeito em pó, pois era meio inventado, como muito bem o sabia; inventada aquela aventura com a moça; fabricada, como se fabrica a melhor parte da vida, pensou – como a gente se fabrica a si mesmo; a vida; como se inventa uma deliciosa diversão, e qualquer coisa mais. Era esquisito, e inteiramente verdade; tudo o que não se podia compartilhar… esvaía-se em pó.

Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana, p. 55/56. Nova Fronteira

Seu lado diabólico

Foi uma noite horrível! Ele se tornou cada vez mais sombrio, não por causa daquilo, apenas; por causa de tudo. E não podia vê-la; não podia explicar-se com ela; não podia esclarecer nada. Sempre havia gente… e ela continuava como se nada houvesse acontecido. Esse era o seu lado diabólico – aquela frieza, aquela dureza, algo de muito profundo que ele de novo sentira naquela manhã, ao falar-lhe; aquela impenetrabilidade. Mas Deus sabia como ele a amava. Tinha ela o estranho poder de vibrar os nervos da gente, como se fossem cordas, sim.

Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana, p. 61. Nova Fronteira

Amizade

Considerando aquela longa amizade de quase trinta anos, dir-se-ia confirmada a teoria de Clarissa. Por breves que fossem os seus reais encontros, breves, acidentados, e até constrangedores, com todas as ausências e interrupções (naquela manhã, por exemplo, justamente quando estava começando a falar a Clarissa, entrara Elisabeth, como uma potranca de pernas altas, bela silenciosa), o efeito que haviam tido na vida dela era, de fato, incomensurável. Havia um mistério naquilo. Recebia-se uma dura, amarga, desagradável semente (aqueles encontros tão penosos às vezes); mas eis que, nos mais imprevistos lugares, aquilo floria, abria-se, aromava, deixava-se tocar, depois de jazer longos anos perdidos.

Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana, p. 147/148. Nova Fronteira

O que lhe faltava

Via o que lhe faltava. Não era beleza; não era inteligência. Era essa coisa central, que se comunica; alguma coisa de cálido que quebra a superfície e encrespa o frio contato de homens e mulheres, ou de mulheres entre si.

Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana, Nova Fronteira, p. 34