Enclausurada como ela ficara tantos dias na meia-luz da casa com seu cheiro de flores, a audácia das palavras encheu-a de exultação. Aquilo ela podia sentir genuinamente. Aquilo era algo que ela mesma se dizia. Mas logo, à medida que o Primo James lia, alguma coisa se soltou. O sentido das palavras anuviou-se. Não podia acompanhar com a razão. Mas já em meio ao sermão surgia outra explosão de beleza que lhe era familiar: “E fenece como a relva, que de manhã está verde e crescida, mas à tarde está cortada, e seca e murcha.” Podia sentir a beleza daquilo. De novo era como música. O Primo James, porém, parecia apressado, como se não acreditasse muito no que estava dizendo. Parecia passar do conhecido para o desconhecido; daquilo em que acreditava para aquilo em que não acreditava. Até sua voz se alterou. Parecia tão limpo, parecia engomado e passado a ferro como os seus paramentos. Mas que queria dizer como o que estava dizendo? Ela desistiu. Ou a gente entendia ou não entendia, pensou. E sua atenção desviou-se.
Romance: Os Anos, tradução de Raul de Sá Barbosa, Novo Século, p. 107.