A chuva fina, a doce chuva, caía igualmente sobre cabeças mitradas e cabeças descobertas. E com tal imparcialidade que era inevitável pensar que o deus da chuva, se tal deus existe, dizia: que ela não seja privilégio dos muito sábios nem dos muito poderosos, mas de tudo que respira, masca e mastiga o mundo, dos ignorados como dos desgraçados, dos que labutam na fornalha para fazer cópias sem fim do mesmo pote e dos que esquentam a cabeça no cipoal das letras. Que todos se beneficiem da minha munificência, inclusive a Sra. Jones na viela.
Romance: Os Anos, tradução de Raul de Sá Barbosa. Novo Século, p. 64/65