Música sem consciência
Novembro 15, 2009
Não tinha consciência, aquela música. Não reconhecia a ventura nem a desgraça de ninguém, e por isso mesmo era consoladora, até para aqueles que haviam sondado os últimos vislumbres de consciência na face de um moribundo.
- Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana, pág. 130.
A consciência da complexidade
Novembro 8, 2009
- Mas espere. Enquanto somam a conta atrás do balcão, espere um momento. Agora que me vinguei de você pelo golpe que me fez cambalear entre migalhas e cascas e velhas lascas de carne, registrarei, em palavras de uma sílaba, o modo como, também debaixo do seu olhar, com aquela minha compulsão, começo a perceber isto, aquilo e outras coisas mais. O relógio tiquetaqueia; a mulher espirra; o garçom chega – há um encontro gradual, uma reunião, uma aceleração, uma unificação. Ouça: um apito soa, rodas disparam, a porta range nos gonzos. Recupero a consciência da complexidade e da realidade e da luta, pelo que lhe agradeço. E com alguma compaixão, alguma inveja e muita boa vontade, pego sua mão e lhe desejo boa noite.
Romance: As Ondas, tradução de Lya Luft. pag. 220
Meditação
Outubro 30, 2009
“Afinal, basta sentar de olhos abertos para ter o cérebro cheio, e alguém, quando o esvazia, pode talvez dar com algo que ilumine”
Conto: Memórias de uma romancista, tradução de Leonardo Fróes
Dom feminino
Outubro 25, 2009
“Era essencialmente feminina; com esse extraordinário dom, peculiar às mulheres, de fazer-se num mundo próprio, onde quer que se encontrasse.”
- Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana
Ressonâncias e adoráveis ecos
Outubro 21, 2009
“Qual a frase para a lua? E a frase para o amor? Com que nome devemos designar a morte? Não sei. Preciso de uma linguagem reduzida como a dos amantes, palavras de uma sílaba como a que as crianças falam quando entram no quarto e encontram sua mãe costurando e apanham um pedacinho de lã colorida, uma pluma ou uma tira de chintz. Preciso de um uivo; um grito. Quando a tempestade vara o charco e passa por cima de mim, deitado na vala sem ser notado, não preciso de palavras. De nada que seja exato. De nada que baixe com todos os seus pés no chão. De nenhuma daquelas ressonâncias e adoráveis ecos que se quebram e repicam de nervo em nervo em nossos peitos, formando música selvagem e frases falsas. Acabei com a frase.”
(Romance: As ondas, tradução de Lya Luft, pag. 221)
Triunfo sobre a vida
Outubro 14, 2009
“Desprendendo-se da personalidade, perdia-se tudo, a agitação, a pressa, o rebuliço; e sempre lhe subia aos lábios uma exclamação de triunfo sobre a vida, quando tudo dentro dela se reunia nessa paz, nesse repouso, nessa eternidade.”
(Ao farol, 1982, tradução de Luiza Lobo)
Solidão
Outubro 13, 2009
“O amor torna a gente solitária.”
- Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana
Como cordas de violino
Outubro 7, 2009
“Estou me afogando, minha querida, num mar de fogo. Se você não aplacar a minha angustia desse momento com algum bálsamo, se não disser algo agradável a esse jovem aí na frente, minha vida se extinguirá de encontro a algum rochedo. Com efeito, já ouço o rilhar e o roçar de encontro às pedras. Meus nervos estão tensos como cordas de violino. Mais um toque e rebentarão.”
(Ao farol, 1982, tradução de Luiza Lobo)
Para dar o primeiro toque
Outubro 3, 2009
“e assim, involuntariamente, nos mais diversos momentos, ao andar pela estrada de Bropton, ou ao escovar os cabelos, ela se via pintando esse quadro, passando os olhos por ele, ou tentando desatar esse nó na sua imaginação. Mas havia uma enorme diferença entre conjecturar planos no ar, longe da tela, e efetivamente pegar o pincel e dar o primeiro toque”
(Ao farol,1982, p.160, tradução de Luiza Lobo)
Experiência
Setembro 30, 2009
“Ela sentia mais profundamente, mais apaixonadamente, cada ano que passava. E aquilo aumentava, suspirava ele; mas antes devíamos alegrar-nos: aquilo aumentava com a experiência.”
- Romance: Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana
