Era como música

Enclausurada como ela ficara tantos dias na meia-luz da casa com seu cheiro de flores, a audácia das palavras encheu-a de exultação. Aquilo ela podia sentir genuinamente. Aquilo era algo que ela mesma se dizia. Mas logo, à medida que o Primo James lia, alguma coisa se soltou. O sentido das palavras anuviou-se. Não podia acompanhar com a razão. Mas já em meio ao sermão surgia outra explosão de beleza que lhe era familiar: “E fenece como a relva, que de manhã está verde e crescida, mas à tarde está cortada, e seca e murcha.” Podia sentir a beleza daquilo. De novo era como música. O Primo James, porém, parecia apressado, como se não acreditasse muito no que estava dizendo. Parecia passar do conhecido para o desconhecido; daquilo em que acreditava para aquilo em que não acreditava. Até sua voz se alterou. Parecia tão limpo, parecia engomado e passado a ferro como os seus paramentos. Mas que queria dizer como o que estava dizendo? Ela desistiu. Ou a gente entendia ou não entendia, pensou. E sua atenção desviou-se.

Romance: Os Anos, tradução de Raul de Sá Barbosa, Novo Século, p. 107.

Chuva

A chuva fina, a doce chuva, caía igualmente sobre cabeças mitradas e cabeças descobertas. E com tal imparcialidade que era inevitável pensar que o deus da chuva, se tal deus existe, dizia: que ela não seja privilégio dos muito sábios nem dos muito poderosos, mas de tudo que respira, masca e mastiga o mundo, dos ignorados como dos desgraçados, dos que labutam na fornalha para fazer cópias sem fim do mesmo pote e dos que esquentam a cabeça no cipoal das letras. Que todos se beneficiem da minha munificência, inclusive a Sra. Jones na viela.

Romance: Os Anos, tradução de Raul de Sá Barbosa. Novo Século, p. 64/65

Escrever é muito difícil

Terça, 11 de Maio [1920]

Vale a pena mencionar, para consulta futura, que o poder criativo, que brota de forma tão agradável quando se começa um livro novo, se acalma algum tempo depois, e uma pessoa continua com uma maior regularidade. Insinuam-se dúvidas. Depois uma pessoa resigna-se. Mais do que outra coisa, o que leva uma pessoa a continuar é a resolução firme de não desistir, a sensação de haver uma forma iminente. Estou um pouco apreensiva. Como poderia realizar esta concepção? Assim que se começa a trabalhar fica-se como quem passeia por um campo que já venha visto de longe, antes. Não quero escrever nada neste livro [O Quarto de Jacob] que não me dê prazer. Contudo, escrever é sempre difícil.

Diário – 1º Volume, tradução de Maria José Jorge, Bertrand de Portugal, p. 202

Vestido azul

Segunda, 23 de Junho [1919]

Se não tivesse tido desde o meio-dia para me aquietar, estava ainda vibrando e tremendo de excitação por causa de Garsington. Mas as festas já não me embriagam como costumava acontecer. Não me importo muito com a momentosa questão do penteado, e das alterações nos vestidos; estou resignada a ficar no grupo das mal vestidas, embora a Gravé, com os seus caprichos, e a pressa de me acabar o vestido azul, e as dúvidas sobre a beleza do vestido, mal pareça confirmar essa afirmação. Aqui, acho eu, surge a importante e de momento dolorosa questão do gosto estético. Porque estarei eu calma e indiferente perante o que as pessoas dizem do Noite e Dia, e inquieta quanto à opinião que façam do meu vestido azul?

 Biografia: Diário Virginia Woolf – Primeiro Volume. Bertrand de Portugal, p. 165

A ilusão prevalece

A verdade – se ousássemos empregar tal palavra em tal situação – é que esses grupos de pessoas parecem jazer sob um encantamento. A dona da casa é a nossa moderna Sibila. É uma feiticeira que conserva seus convidados sob um sortilégio. Nesta casa, eles se consideram felizes; naquela, talentosos; numa terceira, profundos. É tudo uma ilusão (o que não é nenhum mal, pois as ilusões são as mais necessárias e valiosas de todas as coisas, e quem pode criar uma está entre os maiores benfeitores do mundo), mas, como é notório que as ilusões se despedaçam em contato com a realidade, nenhuma real felicidade, nenhum real engenho, nenhuma real profundeza são tolerados onde a ilusão prevalece. Isto serve para explicar por que Madame du Deffand não disse mais de três coisas engenhosas no decurso de cinquenta anos. Se tivesse dito mais, seu círculo teria sido destruído. Deixando seus lábios, o dito de espírito rolaria sobre a conversação comum tal uma bala de canhão arrasando violetas e margaridas.

Romance:  Orlando, p. 111. Tradução de Cecília Meireles. Nova Fronteira.

Criança perdida

Sexta, 5 de dezembro [1919]

(…)

Estou quase assustada por perceber até que ponto ele* é o esteio em que me apoio inteiramente. E quase assustada por perceber até que ponto sou intensamente especializada. O meu espírito, quando não pode, seja pela ansiedade ou por outro motivo, perscrutar o papel em branco, é como uma criança perdida – vagueando pela casa inteira, sentada no último degrau a chorar.

Diário – 1º Volume. Tradução de Maria José Jorge. Bertrand Portugal, p. 186 

*Leonard Woolf

Eles gostam do silêncio

De qualquer modo, eles gostam do silêncio, falam lindamente, cada palavra caindo como uma fatia redonda recém-cortada, e não numa confusão de moedinhas polidas, como as mocinhas fazem; e movem-se com determinação, como se soubessem quanto tempo devem ficar e quando devem partir (…).

Romance: O quarto de Jacob, tradução de Lya Luft, p. 162. Novo Século

O que aparecia em seu rosto

A luz do lampião do arco inundava-o da cabeça aos pés. Por um minuto ficou ali parado imóvel, debaixo dela. Sombras manchavam a rua. Outros vultos, isolados ou juntos, emergiram, passaram oscilantes, impediram-no de ver Florinda e o homem.

A luz banhava Jacob da cabeça aos pés. Podia-se ver o padrão do tecido de suas calças; os velhos nós de sua bengala; os cadarços dos sapatos; as mãos nuas; e o rosto.

Era como se uma pedra tivesse sido triturada em pó; como se fagulhas brancas jorrassem de uma pedra lívida, que era a sua espinha; como se uma montanha russa, descendo às profundezas, tombasse, tombasse, tombasse. Era o que aparecia em seu rosto.

Romance: O quarto de Jacob, tradução de Lya Luft, p. 132/133. Novo Século.

Definir a literatura

Fui levada a tentar definir a minha própria busca – não da moralidade ou da beleza ou da realidade – não; mas da literatura em si; e isto fez a Janet ficar um pouco ansiosa e insistente, como se ela afinal tivesse deixado escapar alguma coisa. Onde encontrava eu a literatura? Como a explicava? Concordamos acerca de uma certa passagem de Sófocles; mas como ela a comparou a uma do Lear acho que estávamos a falar coisas diferentes. E insistiu comigo para que lhe explicasse o que eu queria dizer; e, é claro, não consegui nem de longe, e ela disse que sim, que começava a compreender o que eu queria dizer… depois de passar todos estes anos a estudar grego! Sim, deprimiu-me a sua velhice, uma certa instabilidade; mas também me deprimiu a sua crítica implícita a The Voyage Out e a insinuação de que era melhor que me dedicasse a outra coisa que não ao romance. Ora parece-me ser uma tolice, e quem me dera inventar uma cura para isto, ficar assim tão abatida depois destes encontros, que têm por força de acontecer com certeza todos os meses da minha vida. É a maldição da vida dos escritores, quererem ser elogiados e serem assim tão humilhados pelas censuras ou pela indiferença. O único caminho sensato a seguir é uma pessoa lembra-se de que escrever é afinal o que faz melhor; que outro qualquer trabalho me parecia ser um desperdício de vida; que, afinal, escrever me dá um prazer infinito; que consigo ganhar cem libras por ano; e que há gente que gosta do que eu escrevo. Mas para a Janet o que conta é o amor, e disse que as suas amigas só conseguiram “sair-se bem” na vida, e não na arte.

[Janet - Janet Case, uma amiga]

Diário – 1º Volume. Tradução de Maria José Jorge. Bertrand Portugal, p. 129

Orlando homem, Orlando mulher

Se compararmos o retrato de Orlando homem com o de Orlando mulher, veremos que, embora sejam ambos, indubitavelmente, uma e a mesma pessoa, há certas mudanças. O homem tem a mão livre para agarrar a espada; a mulher deve usá-la para impedir que as sedas escorreguem de seus ombros. O homem encara o mundo de frente como se ele fosse feito para o seu uso e de acordo com o seu gosto. A mulher lança-lhe um ar de esguelha, cheio de sutileza, e até desconfiança. Se usassem as mesmas roupas, é possível que sua maneira de olhar tivesse vindo a ser a mesma.

Romance: Orlando; tradução de Cecília Meireles. Nova Fronteira, p. 124.